Enzimas criadas em laboratório aproveitam até 70% da biomassa de cana-de-açúcar

Pesquisadores do CNPEM, em Campinas, desenvolveram melhoramento atômico-molecular de enzimas produzidas por fungos resistentes ao calor na busca por soluções para o uso integral da biomassa.

Enzimas encontradas em fungos resistentes ao calor e que sofreram modificações atômico-moleculares no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), são capazes de aproveitar até 70% do material descartado no processamento da cana-de-açúcar.

O pesquisador Mario Tyago Murakami, do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), no CNPEM, explica que essas enzimas modificadas conseguem "falar todos os idiomas" presentes na biomassa, destravando ligações e transformando elementos da biomassa em açúcares fermentáveis, permitindo a produção de etanol de 2ª geração ou biomaterais. "É como se as enzimas comuns falassem apenas um idioma e a enzima customizada fosse poliglota”, explica.

Murakami destaca que o CTBE trabalha com o foco de uso integral da biomassa. "Dois terços da cana sobram do processo. Um terço é a palha, o outro é o bagaço. A gente quer fazer mais com isso. Tem compostos valiosos, como a lignina e outros tipos de açúcares, que podem não apenas virar combustível, mas bioquímicos e biomaterais", destaca.

E o aproveitamento desses compostos depende da "participação conjunta" entre natureza e tecnologia de ponta. É a biologia sintética. "Na natureza nem sempre a gente encontra o organismo totalmente adequado para aplicação industrial robusta. Aqui nós fizemos a reengenharia genética do fungo, para que ele possa produzir essas proteínas", explica Murakami.

Todo o processo para entender as estruturas atômicas das enzimas conta com o uso do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), do CNPEM. E o aparato tecnológico não apenas permitiu o desenvolvimento das enzimas, como o teste em uma escala semi-industrial na planta piloto do CTBE. "Hoje, esse coquetel enzimático possui uma taxa de sacarificação da biomassa, em condições de processo industrial, de 55% a 70% de conversão da biomassa em açúcares simples", afirma o pesquisador.

Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2018/10/24/enzimas-poliglotas-criadas-em-laboratorio-aproveitam-ate-70-da-biomassa-de-cana-de-acucar.ghtml